Maria de Lurdes dos Anjos Craveiro

Título de la comunicación / Titulo da comunicação
Felicidade e transparência na fachada do Renascimento em Portugal

Resumen / Resumo
A cultura arquitetónica do Renascimento desenvolveu um equilíbrio geométrico nas fachadas dos edifícios, mas introduziu também, por via da gestão calculada dos saberes antigos, um sentido de felicidade espelhado no processo da sua observação. Para Alberti, “il grandissimo ornamento de la città, è la moltitudine de cittadini” e a estratégia urbanística do De Re Aedificatoria consiste na fundamentação de uma cidade ordenada, bela e aprazível onde a coordenação dos espaços públicos, dialogantes com a intimidade do privado, realizam e sustêm os valores do Humano. Uma cidade erigida em paraíso, onde a Razão e a Beleza se conjugam na obtenção do prazer e do deleite universais. Uma Razão que não é expressamente definida por Alberti, mas que se adivinha próxima de um comportamento cívico, moral e religioso, diretamente relacionada com a sedução da liberdade. Transparência e felicidade são, assim, duas categorias fundamentais no ato da inventio e ocupam o arquiteto (para Filarete, durante 9 meses) na formulação do projeto.

A ideia da organicidade na arquitetura alimenta, na realidade, um tempo construtivo dilatado e de que os textos do jerónimo frei Heitor Pinto (na divulgada obra Imagem da Vida Cristã, 1563-1572) ainda fazem eco na segunda metade do século XVI: “a tranquilidade do espírito é como um espelho que vos está pondo ante os olhos vossa própria imagem”. Para o frade, apoiante das pretensões de D. António Prior do Crato à coroa portuguesa e, por isso mesmo, exilado em Toledo por Filipe II em 1583, “é convenientíssimo que pelas cousas visíveis se mostrem as invisíveis de Deus” e, desta forma, a fachada dos edifícios será a expressão qualificada de Deus, porque “a suprema felicidade consiste na contemplação beatífica de Deus”. O mesmo é também dizer que a teoria albertiana encontra reforçado fundamento nos princípios e na prática arquitetónica dos finais do século XVI.

Currículum vitae
Maria de Lurdes Craveiro (mlacraveiro@gmail.com) é Prof. Associada com Agregação no Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e Académica Correspondente da Academia Nacional de Belas Artes.

É a investigadora principal do “Grupo de Estudos multidisciplinares em Arte” (GEMA), no Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património, Unidade de I&D-281, da Fundação da Ciência e Tecnologia.

Desempenhou funções de Técnica Superior no Museu Nacional de Machado de Castro em Coimbra (1985-1988).

Em colaboração com vários organismos tem tido uma ação destacada na defesa, conservação e divulgação do património arquitetónico.

A cerca de uma centena de trabalhos científicos publicados em Portugal, Espanha, Bélgica, Brasil e Estados Unidos abrange o exercício de revisão conceptual em História da Arte, as questões patrimoniais ou os domínios da pintura, da escultura e da arquitetura desde os finais da Idade Média ao período neoclássico.